BlogEntrevistas

Entrevista a Álvaro Domingues

O Google é melhor que Deus

Entrevista a Álvaro Domingues: O Google é melhor que Deus

Entrevista a Álvaro Domingues. Estivemos na sessão de apresentação desta “Volta a Portugal” na biblioteca Almeida Garrett, no Porto, e foi, possivelmente, das mais divertidas a que fomos.
Este livro tinha, desde início, o objetivo de ser bem humorado ou foi um efeito secundário? 

Desempoeirada, livre e sem mapa: assim se faz a“Volta a Portugal”do geógrafo Álvaro Domingues, uma edição da Contraponto.

“Divertido” possui muitas vezes uma conotação negativa (ligeirinho, bom para entretenimento, etc.). Se for isso, a resposta é negativa. Com muitas variações de humor, espero que o livro interpele o leitor. É verdade também que se procura sair daquele fado de maledicência e /ou de nostalgia que muitos portugueses gostam de cultivar nas questões que lhes dizem respeito. Arejado é um bom adjectivo!
Entrevista a Álvaro Domingues

Entrevista ao autor, Álvaro Domingues

Quando é que começou esta “Volta a Portugal” (da ideia ao projeto final)? 
Creio que desde há muito – sou geógrafo desde o início dos anos 1980’ – que a Volta está presente. No fundo, é uma indagação constante sobre quem somos, como nos representamos, que lugares habitamos. Abundam narrativas excessivamente simplificadas sobre Portugal e os portugueses. Como desconfio muito dos discursos sobre a identidade, o impulso para andarilho e para encontrar a variedade das coisas, a instabilidade, foi alimentando este impulso de andar sempre às voltas, em busca.

Admitiu, numa entrevista ao Público, que as referências bibliográficas do livro – os textos que acompanham as imagens – foram “cortesia” do Google. A sua reflexão não era mais necessária para as compreendermos?
A cortesia do Google quer dizer que devido ao facto de haver cada vez mais obras acessíveis pelo Google (o sítio PURL da Biblioteca Nacional, p.e., ou os repositórios das universidades, das hemerotecas e bibliotecas em geral), é fácil ser-se surpreendido por um texto ou autor que não se procurava mas que apareceu numa busca internética. Serendipity, chamam-lhe os ingleses. Depois… como não cabia tudo, preferi pensar que o leitor e a pluralidade que o assiste, faria essa reflexão melhor que eu.

Ser geógrafo muda a nossa perceção sobre o mundo ou é o mundo vai mudando a geografia?
As duas coisas. Mas o geógrafo é treinado para ler o território como quem lê as linhas da mão. É o nosso modo de aceder ao conhecimento daquilo que chamam a sociedade, porque o território – a paisagem como sua visualidade – é uma contínua construção social, sempre em mudança. O geógrafo vive na ilusão de que consegue uma percepção sinfónica do mundo, articulando diversas áreas de conhecimento, da geologia à economia. É difícil mas é isso que produz um olhar diferente (creio).

Qual é a primeira coisa que vem lhe à ideia quando pensa em “lugar-comum”?
Se é lugar-comum é porque é verdade. O lugar incomum pode ser uma construção demasiado retórica, fabricada, purificada. Há outro lugar incomum que também abunda na chamada cultura cultivada, como é o caso da ciência, procurando versões do real diferentes dos da vida prática. Gosto dos lugares comuns e incomuns. Não gosto dos que desdenham dos lugares-comuns porque sim, porque não se ocupam com vulgaridades.

Este livro centra-se no Portugal rural, profundo. O outro, também português, contemporâneo e premiado, não lhe desperta interesse? 
Não tenho essa percepção. Se fosse muito profundo era invisível ou indiscernível e tudo é visível e contemporâneo porque todas as fotos são dos últimos dois anos. O que está ausente é a urbanidade genérica (a mais encontrável como na Rua da Estrada), as coisas excepcionais, os centros históricos, as aldeias típicas e outras relíquias. Fica para outra vez!

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
“Gostei muito do seu livro! É muito engraçado e as fotos são ‘brutais’!”

Este livro é pós-moderno?
Sabe-se lá… quando li o Lyotard e a sua leitura da condição pós-moderna enquanto fim das “grandes narrativas” estruturadas, estáveis e produtoras de explicações e soluções claras e indiscutíveis, pensava que já se praticava isso há muito na geografia. Pela mesma razão aprecio o descentramento, a visão múltipla, a obra aberta, como dizia o Umberto Eco.

Wook está na sua mesa-de-cabeceira?
Um livro de sudokus, o Ministério da Felicidade Suprema da A. Roy; Jesus Cristo Bebia Cerveja do Afonso Cruz e (muitos) trabalhos dos alunos para corrigir.

Se pudesse escolher apenas uma foto para ilustrar todo o livro, qual seria? E porquê?
Difícil… talvez o homem que racha lenha na praia. Faz o pleno entre a mitologia estafada do país dos navegantes e a conversa mole da economia do mar. As ondas agitadas, o trabalho, o surpreender as coisas onde não se pensa que possam estar… isso agrada-me.

Se, nas suas palavras, “o Google é Deus”, quem é o diabo? 
O Google é melhor que Deus porque responde sempre. O diabo é uma das representações de deus, como sabe, como Janus.

LEITURA RECOMENDADA

Via
Blog Wook
Source
Wook
Tags

Sala de Leitura

Sala de Leitura, www.tuconsegues.com

Related Articles

Deixe uma resposta